terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Peabiru, a rota perdida

André Kovalevski
A história brasileira, a despeito da quantidade de livros e pesquisas publicadas ao longo dos anos, ainda é um enredo repleto de perguntas sem resposta. E o que mais atormenta o imaginário de historiadores e pesquisadores é algo tão misterioso quanto inspirador: como seria o Brasil antes da chegada de portugueses e outros exploradores europeus? Na busca por respostas, alguns indícios têm vindo à tona, os quais revelam algo no mínimo surpreendente: comerciantes e soldados Incas teriam pisado em território brasileiro e mantido, mesmo que isoladamente, contato com nossos indígenas, especialmente os guaranis. Em seu livro Náufragos, Traficantes e Degredados (Editora Objetiva, 1998), o jornalista Eduardo Bueno dá algumas pistas do que foi o Peabiru: "Não se tratava de uma mera vereda na mata: era quase uma estrada, sinalizada por certa erva muito miúda". A denominação Caminho do Peabiru aparece pela primeira vez no livro História da Conquista do Paraguai, Rio da Prata e Tucumán, escrito pelo padre jesuíta Pedro Lozano, nascido em 1697. Ponto de partida - O que pouca gente sabe, especialmente na Baixada Santista, é que São Vicente, além de ser a primeira vila organizada fundada no País, foi um dos pontos de partida da rota, cujo nome, em tupi-guarani, significa pe (caminho) e abiru (gramado amassado). A trilha que ligava o litoral brasileiro aos Andes também era alcançada a partir de Cananéia (SP) e Porto dos Patos (SC). O que tem dificultado o trabalho dos estudiosos é o fato de que o desenvolvimento, particularmente a agricultura, acabou por apagar boa parte do seu traçado original. Em São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul praticamente não existem mais trechos originais. Somente em 1970 alguns vestígios do Peabiru foram encontrados pela equipe do professor Igor Chmyz, da Universidade Federal do Paraná. O grupo achou cerca de 30 km da trilha na área rural de Campina da Lagoa (PR). Ao longo do trecho, o pesquisador descobriu sítios arqueológicos com restos de habitações utilizadas, provavelmente, quando os índios estavam em viagens. Algumas iniciativas têm buscado recuperar parte da rota. Trabalho do arquiteto Daniel Issa Gonçalves, pela USP, posiciona o caminho sobre a atual malha urbana da cidade de São Paulo. "As trilhas indígenas são um dos raros testemunhos da vida no período pré-colombiano brasileiro", afirma Daniel. Mas o que ainda intriga os pesquisadores é quando e como o caminho teria sido criado. A pesquisadora Rosana Bond diz ser difícil datar o Peabiru com precisão. Mil anos - Em suas pesquisas, ela diz ter encontrado hipóteses de que o Peabiru pode ter sido utilizado pelos Itararés, no interior paranaense, já nos anos 400 ou 500 D.C., portanto, mil anos antes da conquista européia. "Achei também suposições de que o caminho, em seu trecho paraguaio e andino, já era usado no século VIII", afirma. Mas a principal característica que faz do Peabiru algo excitante aos olhos de muitos pesquisadores é a possibilidade dele ter sido utilizado para o contato entre índios brasileiros e os Incas. "Isso é praticamente certo. Há autores que defendem a tese de que o Peabiru teria sido aberto de Oeste a Leste, de lá para cá, dos Andes rumo ao Brasil, e não o contrário. É provável que comerciantes e soldados Incas tenham estado, em algumas oportunidades, no teritório brasileiro. Não foi uma presença constante, pois os nossos índios não permitiam", diz Rosana. Não bastassem essas afirmações, outro detalhe também contribui para aumentar a aura de mistério que cerca o caminho: "Chama a atenção a existência de pedras orientadas, de uso astronômico, e de relógios solares - semelhantes aos incaicos - em alguns pontos do Sul do Brasil, inclusive no litoral", comenta Rosana. Nas palavras do escritor e historiador Hernâni Donato, a maior autoridade brasileira no assunto e autor de mais de 60 livros, é fundamental olhar o caminho pelos olhos dos Incas e não apenas pelo prisma dos europeus. "Do coração do império, as estradas Incas apontavam para os quadrantes da América. As mais importantes, pavimentadas, protegidas, arborizadas e regadas. Outras, secundárias, meramente de exploração - como o Peabiru - menos cuidadas, preparando o futuro avanço para o Atlântico".