Como disse Zuenir Ventura, “mofino e sombrio, 1969 inaugurou os anos de chumbo” que durariam até 1973. O primeiro fato importante daquele ano, em relação à ditadura militar, aconteceu no dia 24 de janeiro, quando Carlos Lamarca, então capitão do Exército Brasileiro, desertou e levou consigo um verdadeiro arsenal, roubado do quartel de Quitauna, em São Paulo. É um resumo da trajetória desse personagem que vamos contar a seguir.
Lamarca nasceu no Rio de janeiro, em 27 de outubro de 1937, numa família modesta da zona norte carioca. Magro, com 1,75 m de altura, olhos e cabelos castanhos escuros, casou-se em 1959 com Maria Pavan, com quem teve dois filhos: César e Cláudia.
Mesmo participando de movimentos de rua, como durante a campanha do “Petróleo é nosso”, e tendo como livro de cabeceira “Guerra e Paz”, de Leon Tolstoi, Lamarca decidiu que queria ser oficial do Exército. Formou-se, em 1960, pela Escola Militar das Agulhas Negras, em Resende (RJ), obtendo a patente de Capitão em 1967.
Em 1962 integrou o contingente militar da Organização das Nações Unidas, tendo ficado um ano na zona de Gaza, no Egito, perto do canal de Suez. Regressando ao Brasil, foi designado para servir num batalhão da Polícia do Exército, na cidade de Porto Alegre (RS), quando solicitou inscrição junto ao Partido Comunista Brasileiro, que nunca chegou a se formalizar.
Um ano após o Golpe Militar de 64 Lamarca transferiu-se para o quartel de Quitauna, em São Paulo, onde passou a teorizar sobre a “necessidade de buscar um caminho para a revolução brasileira, que supunha modificar a situação agrária e, por conseguinte, romper com todo o sistema, baseado e construído exatamente sobre o atraso e a miséria de nossas regiões rurais”. Lamarca acreditava que se fosse construída uma coluna guerrilheira com a participação do povo, ela poderia se transformar num movimento maior. Para ele, a implantação de focos guerrilheiros poderia desencadear a luta armada e despertar o povo para a luta armada contra a ditadura.
Nessa época já existiam alguns movimentos, como a Ação Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighela (falaremos sobre ele mais tarde), o Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), que era integrado em sua maioria por sargentos desertores das Forças Armadas, e a Política Operária (POLOP). Uma dissidência entre os dois últimos levou a criação da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), com quem Lamarca passou a manter contatos, e onde apresentou a idéia de roubarem um grande carregamento de armas e munições do quartel de Quitauna, onde servia, desde que toda a célula ingressasse imediatamente na guerrilha urbana.
A ação foi preparada para acontecer nos dias 25 e 26 de janeiro de 1969, um final de semana, inclusive com a especificação detalhada de quem deveria matar quem. Entretanto, a prisão de quatro militantes da VPR, na quinta-feira, e a descoberta, em Itapecerica da Serra, do caminhão que estava sendo pintado com as cores do Exército, a fim de facilitar o roubo do armamento, determinaram a antecipação do assalto, o que aconteceu na tarde de sexta-feira, 24 de janeiro de 1969, Lamarca entrou no 4º RI com sua própria Kombi e, no paiol, carregou-a com 63 FAL, 3 metralhadoras INA, uma pistola .45 e farta munição. Saindo do quartel com a munição roubada, Lamarca dirigiu-se para a casa de Onofre Pinto, a fim de despedir-se de sua esposa, Maria Pavan, e do casal de filhos que, naquela mesma noite, embarcariam para Cuba, via Roma.
Lamarca passou 10 meses trancado em aparelhos (nome que se dava aos esconderijos dos revolucionários) na cidade de São Paulo, vivendo clandestinamente, até seguir para o Vale da Ribeira, com mais 16 militantes, a fim de realizar um treinamento em guerrilha. Lá permaneceu até maio de 1970, quando a região foi cercada por tropas do Exército e da Polícia Militar. Houve combates, mas Lamarca conseguiu romper o cerco ao lado de dois companheiros, após a retirada de vários outros.
De volta à cidade, continuou no comando e planejamento de ações armadas, para resgatar prisioneiros políticos e obter recursos para a sobrevivência da organização. Foram ao todo dois anos e oito meses de clandestinidade, nos quais reforçou seu caráter introspectivo e exercitou sistematicamente – com a mesma disciplina que emprestava ao treinamento físico – o hábito de ler e escrever. Nas sucessivas mudanças a que era obrigado por razões de segurança, de duas coisas nunca se separava: da arma e dos manuscritos, que intitulava provisoriamente de ‘Estudos militares’.
Até aqui podemos dizer que a história de Carlos Lamarca se resumiu a atos que lhe deram uma áurea de herói para muitos. Militar, desenganado com o Governo Militar, deserta e leva consigo armas para fomentar a luta armada contra esse governo. Mas não foi apenas heroísmo e romantismo a passagem de Lamarca pelo movimento revolucionário. Foi também de seqüestro, roubo e assassinato de quem nada tinha a ver com a ditadura. Isso, mais o fim melancólico de uma “Guevara” tupiniquim, você verá na próxima edição. Chegou a vez da história do traidor para outros. Sobre o assunto, é minha opinião formada!