sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Carlos Lamarca: herói para uns, traidor para outros (II)

Na tarde de 9 de maio de 1969, Lamarca comandou o assalto simultâneo aos bancos Federal Itaú Sul-Americano e Mercantil de São Paulo, na Rua Piratininga, bairro da Mooca, cujo gerente, Norberto Draconetti, foi esfaqueado. Lamarca não entrou em nenhum dos bancos, ficando escondido nas redondezas, de tocaias, para dar cobertura ao bando. Um guarda-civil percebeu que alguma coisa estava acontecendo e se aproximou, tomando precauções em relação aos que estavam dentro do banco. Nesse momento, Lamarca saiu detrás de uma banca de jornal e desferiu um tiro na nuca do guarda-civil, Orlando Pinto Saraiva, que ainda recebeu um segundo tiro na testa, caindo morto.
Na noite do Dia das Mães, 8 de maio, Lamarca e mais seis militantes emboscaram cerca de 20 homens da Polícia Militar de São Paulo, chefiados pelo Tenente Alberto Mendes Júnior, que decidiu se entregar como refém, desde que seus subordinados, feridos, pudessem receber auxílio médico.
Depois de andarem um dia e meio, os cinco guerrilheiros pararam para um descanso, no início da tarde de 10 de maio de 1970. Lamarca disse que o Ten Mendes os havia traído, causando a morte de dois companheiros (não sabia que eles estavam, apenas, desgarrados) e, por isso, teria que ser executado. Poucos minutos depois, Yoshitane Fujimore, acercando-se por trás do Tenente, desferiu-lhe, com a coronha do fuzil, violentos golpes na cabeça. Caído e com a base do crânio partida, o Ten Mendes gemia e contorcia-se em dores. Diógenes Sobrosa de Souza desferiu-lhe outros golpes na cabeça, esfacelando-a. Lamarca, perante os quatro terroristas, responsabilizou-se pelo assassinato.
Depois do sucesso do seqüestro do embaixador alemão Ehrenfried Ludwig Von Holleben, levado ao termo pela VPR e ALN, e trocado por 40 terroristas, Lamarca decidiu pelo seqüestro do embaixador suíço, Giovanni Enrico Bucher.
A ação desencadeou-se na manhã de 07 de dezembro de 1970, na Rua Conde de Baependi, uma rua estreita, de mão única, que liga o bairro de Laranjeiras ao Flamengo. Depois de bloqueado o Buick azul do Embaixador, Lamarca, de cavanhaque, terno e gravata, bateu no vidro da janela onde estava o segurança, o Agente da Polícia Federal Hélio Carvalho de Araújo. Abriu a porta e disparou dois tiros com um revólver "Smith & Wesson" calibre 38, cano longo, a uma distância de um metro: o primeiro tiro atingiu o teto do carro e o segundo, as costas do Agente que, por instinto, se virara. Com a medula totalmente seccionada pelo projétil, o Agente viria a falecer três dias depois, no Hospital Miguel Couto. O embaixador seria trocado por 70 presos políticos, a maioria terroristas. Era o terceiro assassinato de Carlos Lamarca.
Em abril de 1971, em discordância com a VPR, ingressou no Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). Para Lamarca, o ingresso no MR-8 representou, nada menos, que o início do seu fim.
Na tarde de 6 de agosto, encontraram-se, no centro de Salvador, César de Queiroz Benjamin ("Menininho") e José Carlos de Souza, que estavam há algum tempo sob vigilância. Os policiais deram voz de prisão aos dois militantes. O "Menininho" atracou-se com os agentes, chegou a atirar e conseguiu fugir ao cerco, dirigindo-se para a então Guanabara. Menos feliz, José Carlos foi preso e começou a denunciar diversos companheiros.
No dia 20 de agosto de 1971, através das declarações de José Carlos, a polícia cercou o edifício onde os terroristas se escondiam e exigiu a rendição dos ocupantes do apartamento 201. Após terem sido presos Lúcia, Jaileno e Nilda, Iara Lavelberg foi encontrada no apartamento vizinho, o 202, onde se escondera no início do cerco. Não vendo possibilidades de fuga e assolada por bombas de gás lacrimogênio, a amante de Lamarca suicidou-se com um tiro no coração.
No dia 27 a polícia chegava a Buriti Cristalino, no sertão da Bahia, onde se encontrava Carlos Lamarca. Um dos terroristas foi morto, outro preso e um terceiro se suicidou. Lamarca estava acampado a poucos quilômetros do lugarejo de Buriti Cristalino, ouviu os tiros e fugiu, internando-se com José Campo Barreto, o Zequinha, mata adentro.
No meio da tarde de 17 de setembro de 1971, uma equipe de agentes, integrantes da Operação Pajussara, localizou os dois militantes, que descansavam à sombra de uma árvore, perto do arruado de Pintada, município de Oliveira dos Brejinhos. À voz de prisão, tentaram sacar de suas armas. Uma série de tiros pôs fim ao ex-Capitão comunista - que deixara um rastro de sangue atrás de si - e a José Campos Barreto.
Na edição da semana passada falamos sobre a áurea de herói de Carlos Lamarca, e nesta semana mostramos o lado cruel e a o fim de um dos mais famosos militantes da luta armada no Brasil. O objetivo é que o leitor possa analisar, á luz dos fatos, em qual dos dois segmentos se enquadra o ex-capitão: herói ou traidor? Sobre o assunto, é minha opinião formada!