terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Marighella, o mulato que assustou a ditadura!

Carlos Marighella nasceu em um sobrado na Baixa do Sapateiro, em Salvador, no dia 5 de dezembro de 1911, filho de um imigrante italiano e de uma negra baiana descendente de escravos sudaneses.
Aos 21 anos de idade aderiu à Federação Vermelha dos Estudantes, vinculada ao Partido Comunista Brasileiro, abandonando no terceiro ano o curso de engenharia civil. A militância levou-o diversas vezes à prisão, sendo a primeira delas em 1932.
Em fevereiro de 1936 mudou-se para o Rio de Janeiro tendo, em 1º de maio, sido detido pela Polícia de Filinto Müller, foi torturado 23 dias. Novamente preso em 1939, queimaram-lhe as solas dos pés com maçarico, enfiaram-lhe estiletes sob as unhas, arrancaram-lhe alguns dentes e abriram sua testa com uma coronhada.
O Estado Novo confinou-o na Ilha de Fernando de Noronha. Transferiram-no em 1942 para a temida Colônia Correcional Dois Rios, na Ilha Grande. Além de acompanhar pelo rádio as vitórias dos Aliados na Segunda Guerra Mundial, valeu-se da habilidade manual para criar uma oficina coletiva de artesanato, cujos produtos eram vendidos a parentes e amigos. A receita servia para melhorar a alimentação, comprar remédios, ajudar nas despesas das famílias pobres e no pagamento de honorários de advogados. Foi libertado com a anistia de 18 de abril de 1945.
Marighella integrou-se ao Comitê Central do PCB, para o qual fora escolhido na Conferência da Mantiqueira, de 1943, sendo eleito deputado federal constituinte pelo PCB da Bahia em 2 de dezembro de 1945, com 5.188 votos. Em dois anos de mandato, proferiu 195 discursos, denunciando as más condições de vida do povo e a crescente penetração imperialista no país. Defendeu a reforma agrária, a liberdade de culto religioso, o ensino leigo e o divórcio.
Com a eleição de Dutra o PCB teve o registro suspenso em maio de 1947. Os mandatos de seus parlamentares foram cassados em 7 de janeiro de 1948. A Juventude Comunista foi declarada ilegal, sedes do PCB fechadas, 143 sindicatos colocados sob intervenção e jornais comunistas empastelados à luz do dia. Meses após, sob rigorosa clandestinidade, Marighella assumiu a direção do Comitê Estadual de São Paulo.
Com o golpe militar de 31 de março de 1964, Marighella e demais líderes do PCB tiveram os direitos políticos suspensos por dez anos e foram indiciados em Inquéritos Policiais Militares. Carlos fugiu com a família minutos antes de seu apartamento alugado na Rua Corrêa Dutra, no Flamengo, ser invadido pelo DOPS.
Em 9 de maio de 1964, agentes do DOPS seguiram Marighella até um cinema da Tijuca, zona norte do Rio, que exibia o filme Rififi no safári. As luzes do salão acenderam-se e Marighella resistiu à voz de prisão. Ferido à bala no peito, passou dois meses na cadeia, incomunicável, sendo exaustivamente interrogado até a concessão do habeas-corpus, impetrado pelo advogado Sobral Pinto. Teve que voltar à clandestinidade, em virtude da decretação de sua prisão preventiva pela Justiça Militar de São Paulo.
Mesmo desautorizado pelo Comitê Central, Marighella viajou com passaporte falso para Havana, onde, de 31 de julho a 10 de agosto de 1967, participou da 1ª Conferência da Organização Latino-Americana de Solidariedade (Olas). O evento reuniu dirigentes revolucionários de todo o Continente. Com o slogan "Um, dois, três, mil Vietnãs!", Cuba ofereceu suporte aos movimentos de libertação nacional da América Latina. Ao ter a confirmação da presença de Marighella, o Comitê Central do PCB enviou telegrama ameaçando-o de expulsão. Marighella respondeu com uma carta comunicando sua desfiliação.
A Ação Libertadora Nacional (ALN) surgiu em julho de 1968, concebida como "embrião do exército revolucionário, a força armada do povo, a única capaz de destruir as forças armadas da reação, derrubar a ditadura e expulsar o imperialismo".
A ALN representou o primeiro racha sério na esquerda. Na fragmentação político-ideológica, despontaram organizações pró-luta armada, como o Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8), a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), a Vanguarda Armada Revolucionária (VAR-Palmares), Ação Popular (AP, depois Ação Popular Marxista-Leninista, APML), o PC do B e o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR).
O deputado federal Fernando Gabeira, então no MR-8, assegura que Marighella apoiou o seqüestro de Elbrick, embaixador americano, e uma das mais ousadas ações dos guerrilheiros. Marighella divulgou um texto, por ocasião da libertação dos 15 presos políticos trocados por Elbrick, afirmando estar seguro de que "o povo brasileiro aprova a atitude da Ação Libertadora Nacional e dos que com ela participaram do seqüestro do embaixador dos Estados Unidos”.
A ALN comandou ainda diversos assaltos a bancos, para financiar suas atividades. Marighella passou a ser considerado o inimigo número um do Governo, com cartazes afixados em todos os lugares. A palavra de ordem da repressão era desmantelar a guerrilha urbana e liquidar com as organizações. Começou a haver prisões, torturas e mortes de militantes de diferentes grupos. Marighella pensava em acelerar os planos para a implantação da guerrilha rural. Viajaria para a região central do país em 9 de novembro de 1969.
Na noite de 4 de novembro, Carlos foi assassinado pela polícia política, numa emboscada na Alameda Casa Branca, em São Paulo, a um mês de completar 58 anos. Cerca de 30 policiais, comandados pelo delegado Sergio paranhos Fleury ( o mesmo que anos mais tarde desvendaria o seqüestro e a morte de Lúdio Coelho Filho – o Ludinho) armaram a emboscada. Marighella não teve tempo sequer de abrir o paletó para tirar a arma, mas a desorganização e o medo eram tantos, que mesmo sem resistência a ação resultou na morte de uma investigadora e ferimentos em um delegado.